domingo, 15 de junho de 2008

Eclipse ou Gravura à Maneira Negra


O sonho é negro e cai ao chão,


como um homem que perdesse a razão


e deitasse a noite qual um açoite:


A garganta do galo no aloite rasgou-se,


no escuro da noite tua mão escapou-se,


e fiquei para sempre onde os dias não vão




Por isso sou negra, infindo ocaso,


nascida às sete, hora de Deus


E és também negro, mas filho do acaso,


nas mãos nenhum tato e olhos ateus


O vento é doce,


por isso as palmas se dobram,


segredando doídas:


o canto do galo nunca mais ouvirão.




No peito só tenho o que o vento não trouxe,


a cegueira da sorte e essa antiga canção


Por isso, cáustica, rabisco o núbio alvorecer


esboço do que nunca principia...


O galo degolado rodopia ao sol do meio-dia


Ao sol que não há, mesmo que em pleno dia


Só o triste testemunho do papel persiste


Por isso eu giro e giro


Cadê tua mão?




Arranco o coração do galo à guisa de fome


à lua sem halo insana e rezando


por toda luz que jaz desvanecida


Com ácido e sangue firo o teu nome


E se mancho de eternidade a hora da despedida


é porque em mim há muito desinventou-se a manhã





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