O sonho é negro e cai ao chão,
como um homem que perdesse a razão
e deitasse a noite qual um açoite:
A garganta do galo no aloite rasgou-se,
no escuro da noite tua mão escapou-se,
e fiquei para sempre onde os dias não vão
Por isso sou negra, infindo ocaso,
nascida às sete, hora de Deus
E és também negro, mas filho do acaso,
nas mãos nenhum tato e olhos ateus
O vento é doce,
por isso as palmas se dobram,
segredando doídas:
o canto do galo nunca mais ouvirão.
No peito só tenho o que o vento não trouxe,
a cegueira da sorte e essa antiga canção
Por isso, cáustica, rabisco o núbio alvorecer
esboço do que nunca principia...
O galo degolado rodopia ao sol do meio-dia
Ao sol que não há, mesmo que em pleno dia
Só o triste testemunho do papel persiste
Por isso eu giro e giro
Cadê tua mão?
Arranco o coração do galo à guisa de fome
à lua sem halo insana e rezando
por toda luz que jaz desvanecida
Com ácido e sangue firo o teu nome
E se mancho de eternidade a hora da despedida
é porque em mim há muito desinventou-se a manhã
Nenhum comentário:
Postar um comentário