quinta-feira, 5 de junho de 2008

Quadro envelopado

Penso nas crianças e na maneira de pensá-las. Danço um vocabulário obscuro e denso de gestos e traços e símbolos e massa pictórica. Me aguço, me afio, para penetrar em ângulo reto e acertado o mais fundo que possa. Confio. e me ponho disposta a ser fio resistente entre os olhares da vida que poucos luxos permite e o de lupa que a cultura acumulada por séculos a fio permite ter a alguns.
Hoje vieram os jornalistas. Do mundo todo e do Brasil. Um mineiro achou que é muito dinheiro para se investir em um povo que não conhece o conhecimento. Não alcancei-lhe o sentido, posto que justo esse me parece ser o maior motivo. Em nenhum lugar, distante ou perto, existe coisa semelhante a essa de querer abrir os braços e estendê-los aos que são muitos e tão muitos. (só depois fisguei-lhe a ampola de veneno vencido: sempre se gosta, imagino eu que de nada sei, de saber mais do que os que não comem caviar).
Tenho as crianças correndo em mim enquanto a cara casmurra do pintor sempre insatisfeito recorre ao duplo em vórtice de vertigens refletidas. Às sete em ponto o sol nasce e ilumina o trabalho tantas vezes feito e refeito. Mas ele nunca sorri.
Não sei por que falo. Talvez pela pele. Ou pelo que o pensamento não chega a sentir.
O sol está alto agora, mas ainda sentimos frio. Me descubro antiga de tão calma.
Minha nudez é branca.
O tempo muda as pessoas ou as pessoas mudam o tempo? Existe um espírito nacional? Essa entidade, caso exista, forma-se a partir de nós ou nós é que estamos nela envoltos e somos por ela confundidos como se fossemos marinheiros dentre a densa bruma?

Clima de época: por enquanto, ainda somos baços.

Mas não custa sorrir, nem dói dizer sim. E a boa vontade é a melhor das bússolas.

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