sábado, 12 de julho de 2008

O Deslinde do Eixo (a ser lido com rapidez,com neurose, com ironia, com pausas breves e cá e lá alguma falta de ar)

A chuva espreguiçada sobre as ruas do centro da cidade
propõe um exercício torturante de metáforas.
Não aceito.

Sigo com o olhar reto o caminho dos bueiros.
Lúcifer entre as têmporas.
Não aceito as notícias da primeira página.
Não aceito a flor degolada no vaso.
Não aceito o sexo roxo e doentio exposto na esteira acadêmica.
Não aceito o catador de lixo que esquartejou a enteada de oito anos.
Não aceito as teorias algarismáticas e tísicas que vestem cinza.
Não aceito a derrocada do asfalto cavando as feições dos passantes em contínuo pesar.

Temporal de pensamentos escoados na sarjeta.

Não aceito o homem que
hoje mesmo,
de manhãzinha,
não pôde entender o que queria o meu poema.

Poemas não querem nada.
Querem contar o incontável, o ínfimo, o hímen.

Poemas não contam nada.
Ritmo anterior, íntimo, ignorado:
respirar profundo no sono,
vomitar a lama dos olhos,
cantarolar nos clarões de maio,
fechar as narinas à presença do amoníaco.

Poemas são a mudez de Deus.
Primeiramente, era o verbo.
A partir dele todas as coisas no mundo.

Poemas são a liberdade de dizer.
A palavra dá luz à existência.
Iluminar é obscurecer.
Para cada raio de luz um broto na sombra.
Dialetismos no leme.
Navego.

Nada em mim
uma tristeza vaga
pelos homens que morrem
sem velhice.
As angústias dos mentecaptos não merecem rufar de tambores
e homens de bem enfatiotam-se
sem rito
num medo escuro e veloz.

Não tenho nada a ver com isso.

Escorro pela fechadura de um cenho franzido,
mãos crispadas amassando papéis imaginários,
meu olhos pendurados no retrato da cidade
(a líquida tez da brandura dorme nas poças d’água e perjura tal um espelho).

Não sei mais do que enumerar tópicos:
Faíscas.
Barro entranhado nas vísceras.
Nódoas carcomidas no embaraço de mil passantes.
Cataclismo.
Suor.

Um velho me dá a mão
e ponho o pé no mundo:
além dele, depois dele, por cima e dentro.
Longe.
Labiríntico nexo goteja da boca do minotauro-idioma.

Coerência fina e elástica.

Câncer obtuso: viver literatura.
Não aceito o imperativo do verbo.
Abandono-me.

Não quero mais escrever.



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2 comentários:

bomqueiroz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bomqueiroz disse...
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