quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Sem título (nem nada) ou A Roupa Nova do Rei

: às vezes : só às vezes: relembro fotos ao sol : fogos de artifício estalando na boca negra do céu por detrás da chaminé que há tanto deixou de fumar : lembro : as águas moviam-se indiferentes : um mar de gente abarrotava a encosta amando a música e o tempo na frente do rio : lembro : cedo da tarde o vento leve já desenhava no calor de nossos corpos novas rotas : teus dedos nas teclas, deliciosamente à vontade, coloriam sete notas: relembro : agora, o teclado dormindo embaixo da cama, não se deixa tocar : meu suspiro, na caixa toráxica, guarda minha falta de ar: essa saudade eu sei que também notas : sete dias por semana : vem fugaz, veste asas de manteiga, solfeja afinada : se acalma depois : a cabeça no queixo para que te deixem essas mariposas imaginárias : nós dois sabemos bem : é trincar de vidro estremecendo a espinha : hematoma na memória insone : ranhura na mobília gasta do vivido: só que já tudo tão antigo que o toque é morno como o de um hábito

[flash: 2 X 2 : Rimbaud, o gato (pequeno, branco, um olho azul e outro verde) também perdeu-se e mesmo as crianças sabem que não vai mais voltar : morreu ]

: não me importa muito o : pouco : sentido : porque é este o único alívio para quem sente demais : também é com desdém que mordo a carne fácil dessa frase frágil : e além disso : seria demais eu inventar que não é comum este lugar onde estou: o amor também é convenção : e trava-línguas


(A imagem deves compô-la como em seguida descrevo:

o homem é alto e a mulher tem os cabelos molhados.
A lua, em quarto crescente, entra pelos furos do telhado da velha construção onde dois ou três gatos no cio tresnoitam desafinos miando agudamente.

Dentro da histórica confeitaria, o homem e a mulher encostam os joelhos porque já não acham modo de encontrar a meada do fio de aço fremente que os atravessa pelo meio, numa desagrável união - esse ponto de vista tem o público - alguns até, é possível, nem tenham percebido que as rótulas punham-se peças de um jogo de encaixar.

Mais tarde, um narrador onisciente revelará, em fria terceira pessoa, com opressora precisão e precisa dicção, que o homem começa a ter entradas de calvície, ouve os guerrilheiros da notícia no banheiro e que o que queria mesmo era vingança - tão fundo quanto se esconde a sujeira debaixo de suas unhas. Dirá também, sem nem piscar, que a mulher não sabia o que queria, não sabia saber de nada além daqueles joelhos colados aos dela - mas mentia, pintava a boca de vermelho, caminhava como se fosse dona de sua cintura e, numa noite como aquela, se não estivesse ali, diria de si para si que queria era morrer tão leve e para sempre quanto um lilás, enquanto no prato girariam óperas que ela estaria a ouvir chorando, transida pelo medo e pela ignorância do medo, segurando-se nas cortinas vermelhas e ralas da pecinha que alugava no fim do corredor úmido da pensão familiar.

Nenhum dos dois jamais foi ou será feliz.

O narrador, depois de calar-se, acenderá um cigarro e caminhará até a esquina, onde o veremos segurando o gancho de um telefone público sem nada dizer durante dois monótonos minutos. Este homem é aquele mesmo que,nem alegre nem triste, no auge do existencialismo, caminhou às margens do Sena com um saco de gatos para afogar. Mas disso quem saberá?)




estou te dizendo : seria uma ingenuidade crer que seja confissão : olha: era uma infância dada um ao outro : ali, frente a frente : à vista : e nos calava as pálpebras com se fosse um beijo : (crianças só sorriem quando têm razão) : era um fingimento doce navegar na brisa quando na boca só o que havia era a náusea do mundo : (por favor, com gelo e limão) : era um teatro muito limpo o encaixe de nossas pernas enquanto os atores de folga embebiam vaidades em conhaque : (o pancake se lava com água e sabão)

[flash: 2 X 2: a minha magreza de guarda-chuva sorrindo na ponta dos teus dentes de criança (o vento vinha do sul) : quase não havia luz na rua que nenhum de nós mandou ladrilhar]

o sentido é este: pra fora desde dentro: toma meu transe, é teu :
ria comigo : coração : desse monstro bêbado que me espreita entrelinhas tingindo-as com o falso timbre das fundas olheiras e as mãos fartas de (ana)crônico verso: toma : é teu : inteiro e puro : traduzo o que não se comunicou : tuas tragédias eu as trago em minha voz trêmula: só tu a ouves : só eu as conheço

[flash:2 X 2: fecharam as cortinas e depois que o braço eletrônico voltou ruidosamente ao ócio, fatigados de vinho e sexo, deitaram no meio do quartinho: no forro embolorado, o barulho dos ratos correndo causava-lhes uma vontade nua de rir]

às vezes : só às vezes : relembro as fotos em fogo : àguas convulsas fotografando o céu : aos largos goles trago à luz a tensão de tua voz : se te calas : e não é assim por virtude : mas por vir tudo aquilo que vês também um pouco de minhas retinas


Tudo isso foi pra chegar lá, aqui, perceba:

Escrevo nesta tua segunda pessoa desde sempre, mas já que é de verdade que vim te falar, admito que só agora eu a enxergo.
Primário, eu sei; mas, é preciso sim reiterar, até então o brilho do teu olho foi mero espelho.

A luz mudou: te vejo por dentro e por fora, um pouco a cada hora; às vezes chego tão perto que cego e penso ouvir meu coração, em outras fico tão distante que nem pena tenho dessa estapafúrdia figura de chambre, chá gelado, Chopin, chão limpo e nenhuma chance de lógica.

Olha, também descobri outras coisas: uma é que o céu fica mais alto no outono (mas isso, lembro agora, eu já contei) e outra, que se baseia nas conclusões anteriores, é que não preciso mais de ti para escrever.Posso até falar, portanto, de uma terceira pessoa. Daquele narrador psicótico e deturpador,no caso.

Toda idealização nos leva a envolver terceiros, que melhor seria se sempre fossem ternos em suas intenções, ainda que o distanciamento os faça de uma ternura fria e desinteressada como a das madames que doam roupas pras campanhas de inverno. Neste momento, me ocorre até que essa voz deva vir de alguém, além de imaginário, completamente desconhecido, para que possamos sem culpa torcer-lhe o pescoço e deixá-lo no canto, alheio, desimportante, esquecido.
Sobretudo, esquecido.

Pronto: afoguemos o homem, montemos uma orquestra para os gatos magros!

(Ora, não seja idiota)

É uma decisão. Só me lembro do que invento. E funciona: minha versão cabe perfeita como a luva na mão. A parte do chá gelado, por exemplo, é mentira... Mas vai tão bem com Chopin!

Não, não quero dizer nada com isso.

Se digo sem querer não é coisa que se discuta.

[flash: 2 X 2: ato falho, fato mofado. as provas estão aí: feias e legítimas e nossas: como restos consanguíneos num jazigo abandonado]

And now, lady, please, just sing the blues.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Eu saberia, doçura. Também gosto dA Idade da Razão.