domingo, 13 de abril de 2008

A festa

Antes de sair,
abro as gavetas,
rasgo uma antiga carta,
testo os botões de todos os vestidos.
Escrevo o mesmo poema até ficar farta
e o dedico a todas as pessoas que amei em vida:
agora que tanto morro,
já não me importa quem acredita ou duvida.

Nada me importa.
E de mim o que essas coisas exportam?
Não me importa.

Eu: a feia,
engano ao espelho com cosméticos
e esmero mimético nas caras e bocas
de atriz de película.

Eu sou.
Não sou mais.
Fui.
Onde?
Os lugares são as pessoas.
Vice-versa.
Eu vou.
Serei?

Eu: a que não foi.
O espelho não enxerga pecados,
ingênuo como criança em quermesse.
O espelho é cego, surdo, mudo,
nunca leu Shakespeare
e nem cinema conhece.

Amanhã é outro hoje.
Hoje é outro ontem.
Ontem é amanhã.
Tanto faz.

Eu: Ofélia,
desisto e fico aqui sozinha
com os meus seios,
com as minhas coxas,
e também a falta do que ela não tinha.

(poema publicado na primeira edição da revista-pôster Teia de Poesia)

3 comentários:

Anônimo disse...

Qual a razão de tanta tristeza??

G disse...

eu também

Atalante, a Dama de Espadas disse...

eu não
mas solidária