Antes de sair,
abro as gavetas,
rasgo uma antiga carta,
testo os botões de todos os vestidos.
Escrevo o mesmo poema até ficar farta
e o dedico a todas as pessoas que amei em vida:
agora que tanto morro,
já não me importa quem acredita ou duvida.
Nada me importa.
E de mim o que essas coisas exportam?
Não me importa.
Eu: a feia,
engano ao espelho com cosméticos
e esmero mimético nas caras e bocas
de atriz de película.
Eu sou.
Não sou mais.
Fui.
Onde?
Os lugares são as pessoas.
Vice-versa.
Eu vou.
Serei?
Eu: a que não foi.
O espelho não enxerga pecados,
ingênuo como criança em quermesse.
O espelho é cego, surdo, mudo,
nunca leu Shakespeare
e nem cinema conhece.
Amanhã é outro hoje.
Hoje é outro ontem.
Ontem é amanhã.
Tanto faz.
Eu: Ofélia,
desisto e fico aqui sozinha
com os meus seios,
com as minhas coxas,
e também a falta do que ela não tinha.
(poema publicado na primeira edição da revista-pôster Teia de Poesia)
3 comentários:
Qual a razão de tanta tristeza??
eu também
eu não
mas solidária
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