Não me venha falar em lucidez a uma hora dessas
O ocaso se afoga na acidez do rio,
vejo:
cada um a seu modo, os dias todos morrem.
Que se danem os vizinhos se não agüentam mais
estes acordes de rocanról argentino!
Larga mão de me querer quieta, coerente, concisa.
Pouco me importa se atino no fato ou se deliro.
Acorda!
A realidade não é.
A realidade está.
Um dia. Outro. Este. Agora.
(tive um pesadelo
um por um os dentes escapavam pelo ralo da pia
mas eu não olhava para o teu rosto que ria
parado e alto
ao meu lado
na vigília
velado
velando)
Não me venha louvar defeitos.
Lanço mão dos teus olhos insones
para dentro deles
desdizer verdades.
Enfeito teus cílios com cacos de vidro,
para te ferir,
te remir da culpa.
Mas estou
pequena,
quanta,
em tudo,
tomada,
tua sem ter,
tua sem ser.
( a língua esfacelava-se
teu ato mudo como se eu gritasse
em húngaro
desde o mais fundo dos ralos
para que não pudesses sonhar
a matéria do grito)
A realidade foi.
Estréia agora
um sonambulismo de cão,
cão andando na luz
de saber que não sabe,
que não dá,
se acaba.
(escorriam os dentes
um por um
para dentro
da água secreta do solo)
Não consegues dormir?
Dispo-me do dolo.
Também estou esgotada, mas falo:
falimos.
E é verdadeiramente uma pena que esse verbo, no presente, não seja defectivo em nós.
Falling.
Falling.
Até o mais fundo,
lá onde cabelos e gengivas viram magma,
irredimíveis:
corpo.
Ogiva do profano:
corpo.
Corpo não é,
corpo está.
Nos lençóis sujos,
te deitas longo,
passando ao largo de minhas margens.
Rio, ácida.
Mas
só
amanhã definirei a corrente.
Sei.
De repente, essa parece ser uma história que não acaba
nunca mais.
Nunca: essa palavra que não devemos usar.
Como todas as outras, aliás.
As palavras é que nos usam.
Sem elas ficamos
redondos como bocejos,
boçais como pedras,
sem despertador ou desejo.
Não sinto pena de nós.
As palavras são.
E nós...
Nós não.
7 comentários:
Casa de Cuervos? Blanca Varela?
deus do céu!
não compreendo muito bem o comentário, acho. mas por certo a remissão muito me honra!
Legal, gosto muito de Blanca Varela, mas não entendi: por que remissão?
A.A
REMISSÃO
8.Ação ou efeito de remeter, de mandar a um ponto dado.
(Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 3a. ed., revista e atualizada, Editora positivo, 2004)
E parabéns pelo bom gosto.
A LO MEJOR ERES TÚ MISMO!!
Valeu!!
A.A
Este é um poema para ser lido, relido e refletido...poética que fala da experiência do amadurecimento. Gostei!!!
Oi moça,
Falta de habilidade? ahã!!!
Comentário é bom,mas comentário poético,doce,fresco assim como o seu é brisa suave em meu rosto cansado de tempus obtusos...
Obrigadíssima pela visita e pelo carinho,
bjo!!
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