domingo, 6 de junho de 2010

Valsa e Outras Falsas Confissões

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Mi - Mi bemol
Mi - Mi bemol
Mi - Mi bemol

Porque foi assim: chovia e as mãos dele eram mansas. Sem amarras o seu peito e isso nem era culpa minha. Eu só estava esperando que tal coisa acontecesse. Nós dois encharcados de mundo e destruídas as certezas, chegávamos. Estávamos ali os dois, certeiros. Só os olhos um pouco mais rápidos, talvez.

Si - Ré - Dó - Lá
Dó - Mi - Lá - Si

Mentira! Não foi assim com essa luz Truffaut. Não.
Meus tênis estavam furados e eu cheirava mal depois de andar pra lá e pra cá por 4 reais a hora. Ele não tinha um puto nem pra pagar pelo seu próprio refrigerante light.
Nossas casas como gaiolas de pássaros que não cantam mais, apenas fingem agradecer humildes as migalhas de pão quando na verdade nem entendem mais pra quê asas plúmbeas e olhos rasos.
Nós dois nos esgueirando pelas marquises e tentando não olhar demais e nem de menos para as crianças subnutridas e os mendigos e os cães sarnentos e as pombas e os empréstimos pessoais e as baganas de cigarro e os piolhos e as bundas de borracha nas propagandas de cerveja e as índias sujas com suas crianças e as carroças puxadas por cavalos magros no centro da cidade com melhor qualidade de vida do país.
Não era escolha, não era bonito, não era feio, não era nada: apenas era. Tic tac tic tac. O tempo é uma construção absurda e deslocada. Só havia uma verdade: doía, doía de lascar.

Mi - Sol# - Si - Dó
Mi - Sol# - Si - Dó

As mentiras são tão bonitas de se escrever, de se pendurar em telas de plasma na parede da sala, de se moldar em ferro e barro e vender no Brique nos finais de semana. Mas aqui, aí, ali nós só tínhamos os céus mandando água sobre os nossos pulmões podres e uma proposta subdesenvolvida de pseudo intelectual suburbano que leu dois ou três livros do Sartre, o que odiou Porto Alegre, e começou a cuspir em cruzes e beber no bico e surrupiar livros usados nas caixas de 2 por 5 barão.

Mas não se podia morrer, era antes preciso assistir mais uma vez o DVD do Lobão e ver pela última vez um mar que fosse azul e saber de quem era aquela chamada perdida e matar os pássaros para libertá-los e fingir que não dói na espinha o badalar do sino das Dores e aprender nem que seja remando a tocar a valsa pura e lisa sem deslizes.E vamos tomar mais um café. Não se podia morrer. Então a gente mentiu, e mentiu até sorrindo, mentiu que adorava o cheiro da chuva - quando na verdade só o que podíamos perceber era o odor nefasto do cimento armado e dos morcegos e de motores ardendo e dos ensaios das escola de samba.

Mi - Dó - Si - Lá

Eu bem que gostaria de dizer: e foi como se a lei da gravidade não pudesse mais nos reger por um instante e justamente neste instante estivéssemos contando estrelas deitados no campo e nos perdêssemos pra sempre no infinito do céu.
Até devo mesmo ter pensado alguma babaquice tamanha em algum momento, porque ninguém, ninguém mesmo, passa incólume às influências de Hollywood na Sessão da Tarde dos seus quatorze anos. Mas essa mentira não serve. Todo mundo sabe que frases que começam com "eu bem que gostaria de dizer" não deveriam nem existir (sabermos do impossível é a maior prova do sadismo de Deus). Ninguém compraria uma mentira dessas a menos que fosse um adesivo do Ursinho Puf vendido por uns olhos grandes de pré-adolescente que nunca aprendeu a ler. É uma mentira que não serve pra nada. E eu não nasci pra servir ninguém, eu vim aqui só pra contar com a voz entrecortada ( as cordas do violão enroladas no pescoço fino, apertando cada vez mais e mais), eu vim aqui só pra que Deus me livre de mim mesma porque eu juro que não sabia que aquele seria só o primeiro de tantos pastéis de queijo com coca-cola e nem que no intervalo da programação haveria um americano de olhos verdes e telefones silentes e uma atriz de pernas horrorosas e confissões e poemas sinceros e pequenos joguetes e uma mentira tão verdadeira que quase se poderia estampá-la numa camiseta e sair por aí pra tomar cerveja em copos de plástico até se ver cansado de olhar para o concreto vazio do Largo da Epatur.
Foda-se se os períodos estão muito longos. Eu não faço força para ser entendida. Aliás, ser entendida no que quer que seja é o que menos me interessa na enciclopédia inteira do Como Ser Uma Mulher Coerente no Século XXI. Fodam-se as tais mulheres que de tão coerentes não sabem viajar levando apenas uma mochila.

Lá-Mi-Lá
Lá-Mi-Lá

Eu disse a ele, com um fingimento de desinteresse tão admirável que causaria inveja a mim mesma caso eu estivesse me vendo do alto como vejo nos sonhos: somos destino.
E depois fiquei calada soltando fumaça porque se me distraísse por um segundo sequer, era bem capaz de deixar escapar a nódoa da parte mais reservada, mais densa, coberta e recoberta com a lã da afinidade, a parte mais quente, macia e pura, quase inalcançável de tão dentro.
Ou pior ainda, eu poderia me sufocar com a doçura da nódoa e ser estapafúrdia a ponto de confessar que ele está tão lá - mas tão lá onde arde por não ter jamais conhecido luz solar, lá onde não importa se acabou o rímel à prova d’água ou se a FM Cultura está sintonizando mal - tão lá onde tudo apenas é, e dói, por ter sido quase nunca visto pelo brilho dos olhos de quem quer que seja - está tão lá dentro do meu peito que é muito mais conhecedor dele do que eu mesma.
Eu, calada, fumando para não falar. Ele, calado sem fumaça, dono do seu falo. Nós dois ali: sujos do mundo. Ele me perguntou o que eu queria da vida e eu estava com tanto medo que teci uma história interessantíssima onde o início estava no início e o fim só aparecia no final (Às vezes, eu consigo ser brilhante).
Mas não era isso o que eu queria contar. Não é disso que eu preciso que Deus me livre. Depois de tudo,dos livros, da chuva, do existencialismo, do convencionalismo burguês que execramos e no qual damos um amoroso beijo de boa-noite, dos espelhos quebrados, dos tratamentos de canal, da Brigitte Bardot de biquíni, da invenção do jazz e do nascimento, talvez só nos reste a condição de cheios da sujeira do mundo ao redor. Desavisadamente sujos, sem intenção.
Não merecemos, eu sei.
Só que a vida é assim, minha filha, me disse o pai ao telefone, agora tá ruim mas depois vai piorando.
A tristeza é que nem aboio pra chamar o demo. É.É.É.
O que eu quero mesmo é que Deus me livre dessas mulherzinhas semi-gordas que falseiam na voz aquele timbrezinho irritante de desenho animado e só fazem falar em ser feliz como num postal colorido e em douradas epifanias e em vôos de passarinho e em toda essa merda que não convence ninguém e só faz idiotas sorrirem por um segundo porque se esquecem ( ou nunca souberam) que a felicidade é uma construção ainda mais absurda e deslocada do que o tempo, e que não, não existem plátanos inspiradores e casais suaves e calmos como ingleses passeando contra o fundo azul. Foda-se toda essa ridiculez de falar em florzinhas e gatinhos como se fosse a coisa mais linda do mundo uma moça de peitos caídos de maduros dentro de um vestidinho de boneca de pano.
Pelo amor de Deus!

Aliás, Deus, Tu e Teus grandes dentes de marfim: Dó - Ré - Mi - Fá - Sol - Lá - Si: vá se foder também.

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