segunda-feira, 21 de julho de 2008

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http://www.vitorramil.com.br/discos/data/?album=tambong&tr=11






Entrem com cuidado, escutem com atenção.
À minha esquerda, vejam: primeiro foram as mais longas, depois as de mais difícil pronúncia, em seguida as de uso mais raro e todos os termos técnicos.
Não, as janelas não podem ser abertas, a luz e o calor põe em grande risco o silêncio. Em breve, vocês hão de se acostumar com essa leve sensação de falta de ar.
Antigamente daqui se via uma lua amarela, um jardim de damas-da-noite e papoulas coloridas, a linha do horizonte no Equador - agora só esses ciclistas lacerados voltando-se para o passado.
Não podem me perguntar isso, é contra o regulamento. Temos hora para acabar, sigamos adiante.
As palavras líquidas ficam nos frascos verdes.
Vogais altas estão dependuradas no cabide da entrada.
Onomatopéias estão logo ali cristalizadas em pequenas contas, transparentes, de variadas cores e formatos – todos vêem? Por precaução é que foram postas bem longe das portas.
Não façam caso, não há porque ficarem espantados, por difícil que seja de conceber, acreditem: um dia todos fizemos isso.
Agora à direita, observem: termos pernósticos, sagrados ou densos demais em sua carga semântica foram separados um a um e prensados com um rolo gravador pesado o bastante para ficarem com essa aparência de folhas de fino metal, brilhante e com o fio próprio das lâminas.
Estão vendo? Lá atrás, dependuradas em ganchos na parte mais escura do cômodo, depois das estantes.
Estão enxergando aquele homem de barba e olhos bondosos que sofre com tantos espinhos? Aquele cavaleiro junto ao moinho? E o caolho com a inscrição retorcida como um búzio? A dama negra com a flor nos cabelos?O que sussurram os de antigamente é que antes todos sabiam quem foram e o que fizeram essas pessoas. Temos agora essas gravuras frias caladas como que a buril. Não importa, esqueçam-nas.
Vêem bem? Desculpe, não me é permitido abrir as cortinas. Por quê? Está bem, eu conto, até para dar-lhes o exemplo. Uma vez, dizem, um encarregado, por temeridade deixou que o vento viesse sem freio e então os reflexos metálicos dos vocábulos redondos luziram tanto que inundaram a rua, e tilintaram todos tão precisos, apesar de breves, que houve uma epidemia na cidade. O povo começou a pensar, a querer, a imaginar, a saber coisas que jamais qualquer deles conhecera ou vira! Foi uma grande catástrofe!
Portanto, sejam prudentes.
Vejam, palavras das mais triviais espalham-se por todos os lados.
Por favor, cuidado por onde pisam, que os verbetes estão mesmo em toda parte:na mesa comprida, na almofada de alfinetes, debaixo do colchão, no mapa-múndi arcaico, no baú esquecido, nas caixas de brinquedos e até nas lixeiras vazias.
Ouçam minhas mãos.
Apesar de essas palavras que lhes mostro parecerem tão disponíveis não esqueçam que por mais que as moças busquem acima de suas cabeças mudas o que lhes falta e os velhos tentem ajudar gesticulando muito, ainda que as crianças risquem no chão com pedaços de tijolo toda vez que os adultos se distraem por um segundo e os homens continuem vivendo quase que exatamente como antes, verdade venha à tona: o menor ruído pode despertar toda voz novamente e sabemos que estamos proibidos de deturpar seu estado.
O que acontece? Ora, o que acontece! Um desastre!
É assim há muito tempo, obviamente existe um grande motivo.
Não pergunte uma coisa dessas. Já esclareci que é contra o regulamento.
Devemos respeitar esse quadro assim como ele se nos apresenta. Não haverá outra chance, respeite o limite, não toque, nosso tempo se acaba.
Não deteriore a mudez das próximas gerações.
Temos esse uso limitado de caracteres, absorvam com acuidade - se imaginarem o som que outrora tiveram, o façam com discrição.
É um momento único agora que até mesmo as monossílabas se apequenam e calam, o sim e o não ao mesmo temp




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2 comentários:

Telma Scherer disse...

ulá-lá! maravilhoso! um gosto de Ana C., cheiro de luvas de pelica, delicadas, mas sem o pó dos postais, e acho que eis aqui um espelho onde eu possa também me mirar. enfim, a respiração solta e breve. adorei. um charme a interação com o leitor, vivacidade. uma vontade (comprimida, claro) de tirar debaixo do teu braço os papéis com a espiral, e ler tudo tudo, e aí topei aqui com eles, lindos. e tá bem bom de ler o teu blog. parabéns.

Gerusa disse...

sim! tem muito toque de luvas de pelica aí, e também um eco de cem anos de solidão. mas, na verdade, comecei a escrever mesmo por causa do poema do ginsberg que o ramil fixa tão tão bem na canção para a qual o link aí em cima leva.
e os papéis com a espiral... pois que coisa! me esqueci de deixar aquele microfone odioso quieto no pedestal! enfim, mais uma a se aprender.
obrigada, linda.
beijão no coração.