quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sonata cíclica

Às vezes sóàs vezes relembro fotos ao soláguas em movimento indiferenteteus dedos nas teclas sete notas sem par meu suspiro guardado na caixa toráxica porfalta de ar o teclado dormindo embaixo da cama não se deixa tocarEssa saudade eu sei que também notas abanando depois a cabeça para que te abandonem asimaginárias mariposas É um trincar de vidro estremecendo a espinhahematoma na memória insonemancha na gasta mobília do vividosó que já tudo tão antigo que o toque é morno como o de um hábito

[2 X 2: Rimbaud, o gato branco, perdeu-se (morreu) e ninguém mais crê que voltará]

Não me importa muitoopouco sentido porque é este o único alívio para quem sente demais Também é com desdém que mordo a carne fácil dessa frase frágil já que seria demais supor que não é comumolugar onde estou O amor também é convenção e trava-línguas Às vezes sóàs vezes resvalo tão fundo no íntimo da farsa que a vejo bonita e tresnoito a lástima de vê-la findaA imagem deves compô-la assim o homem é alto e a mulher tem os cabelos molhadosDentro da velha delicatessen eles encostam os joelhos porque já não acham outro modo de encontrar a meadadofio de açofremente que os atravessa pelo meio, numa desagrávelunião Mais tarde um narrador em terceira pessoa com opressora precisão e frieza há de revelar que o que o homem queria era vingança como a sujeira que se esconde debaixo das unhas E que amulheramulheramulheramulher a mulher não sabia o que queria não sabia saber à nada além daqueles joelhos que se colavamaosdela Mas mentia pintava a boca de vermelho dizia de si para si que queria era morrer tão leve e para sempre quanto um lilás não era culpada era a chaga o estigma da falta a meia dúzia de óperas que ouvia chorando transida pelomedoepelaignorânciadomedo Guardei com demasiado desvelo uma imagemmacia de corpos deitados delado num vento de novembro que esmaece pouco a pouco como numa polaroidesquecida Envolta em música suave demais guardei a vontadedeamardeverdade a minha magreza de guarda-chuva na ponta dos teus dentes de criança

[3 X 4: mãos irmãs em duas dimensões, contraste e brilho discretos, repousam depois do vôo]

Ingenuidade crer que seja confissãoconfusa sei que agora me vês numa nudez de séculos Era uma infância dada um ao outro ali frente a frente e nos calava as pálpebras com se fosse um beijo Crianças sóriem quando têm razão Era um fingimento doce navegar na brisa quando na boca só o que havia era a náusea do mundo por favor, com gelo e limão Era um teatro limpo o encaixedenossascoxas enquanto os atores de folga embebiam vaidades no conhaquePancake se tira com águaesabão O sentido é estePara foraDesde dentro Toma meu transe é teuRia comigo coração desse monstro bêbado que me espreita entrelinhas tingindo-as com o falso timbre de fundas olheiras e mãos fartas de ana crônicoverso Toma meu transe é teuInteiro e puro traduzo o que se deixou de comunicar

[2 X 2: não mais, diz o bom senso, deve partir-se uma história no espaço de uma mesma vida ou uma mesma vida em história a que falte espaço]


Tuas tragédias eu trago em minha voz trêmula - Só tu a ouves Só eu as conheço - Aos largosgolestrago à luz a tensão de tua voz se te calas não é assim por fina virtude mas por virtudo aquilo que vês também um pouco de minhas retinasÀs vezes sóàs vezes relembro as fotos em fogo águas convulsas fotografando o céu

[3 X 4: as provas estão aí, na caixa de sapato, como restos consanguíneos num jazigo abandonado]

O que se segue daí, não digo Imaginem vocêsObservando é claro o quanto me ajudam no aprendizado da generosidadeVejam exponho os pontosospingosemeuspulmõesfebris mas nunca parece ser o bastanteEntão imaginem
o calvário
a paixão
o êxtase
o final feliz

o cinza dessa tarde
ouoporquêdeprestaremtantaatençãoemmim.

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